Estudo aponta indícios de fraude em 10% das pesquisas sobre câncer

Um levantamento recente identificou que 261 mil artigos científicos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024 apresentam sinais compatíveis com produções oriundas de empresas especializadas na venda de manuscritos acadêmicos. O número corresponde a cerca de 10% dos estudos sobre a doença indexados na base PubMed.

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A pesquisa foi divulgada no fim de janeiro pelo BMJ e parte da constatação de que as chamadas “fábricas de artigos” ampliaram sua atuação nas últimas duas décadas. Estimativas apontam que, nesse período, ao menos 400 mil trabalhos científicos podem ter sido produzidos por esse tipo de serviço.

Essas empresas oferecem a elaboração de estudos fraudulentos e cuidam da submissão a periódicos científicos. Segundo o pesquisador Adrian Barnett, da Universidade de Tecnologia de Queensland, há forte pressão para publicar, especialmente na China, onde médicos frequentemente precisam conciliar jornadas extensas de trabalho com a exigência de produzir pesquisa acadêmica. Esse cenário favorece a procura por serviços terceirizados.

Para investigar a dimensão do problema na área oncológica, os autores desenvolveram um modelo de inteligência artificial treinado com 4.404 artigos, metade deles já retratados por falhas ou fraudes associadas a esse tipo de empresa. A outra metade era composta por estudos considerados legítimos. O sistema alcançou 91% de precisão na identificação de características comuns a publicações suspeitas.

Após o treinamento, o modelo foi aplicado a 2,6 milhões de artigos sobre câncer listados no PubMed. O resultado indicou que 261.245 textos apresentavam padrões semelhantes aos de trabalhos já invalidados.

A análise também revelou diferenças entre países com base na afiliação do primeiro autor. A China lidera em proporção de artigos com indícios de irregularidades, com 36% do total atribuído ao país. Em seguida aparecem Irã (20%) e Arábia Saudita (16%). O Brasil registra 4%.

Barnett afirmou ter se surpreendido com a dimensão do problema. Ao examinar parte dos estudos sinalizados pelo modelo, ele relata que vários apresentavam indícios claros de irregularidade. O pesquisador alerta ainda que algumas produções podem ter escapado da detecção por serem mais sofisticadas.

Segundo os autores, a ideia de que esse tipo de artigo circula apenas em periódicos de baixa qualidade não se sustenta mais. Há indícios de que manuscritos com origem suspeita estejam sendo aceitos por revistas de maior prestígio, o que amplia o risco de que pesquisas inconsistentes sejam lidas como confiáveis.

O enfrentamento do problema, avaliam os pesquisadores, depende tanto do uso de ferramentas de detecção quanto de mudanças estruturais no sistema científico. Editoras enfrentam o desafio do crescimento acelerado no volume de submissões, o que sobrecarrega equipes e revisores.

Além disso, especialistas defendem que pesquisadores se comprometam a não recorrer a esse tipo de serviço e que instituições repensem a cultura de pressão por produtividade acadêmica, considerada um dos fatores que alimentam o mercado de manuscritos fraudulentos.

 

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Fonte: Folhapress

		

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