Jaguaribara: a cidade onde os mortos chegaram antes dos vivos na nova sede

Em julho de 2001, a nova sede do município de Jaguaribara, no interior do Ceará, começou a receber a população que deixou a antiga cidade devido à construção do Açude Castanhão. No entanto, os primeiros a ocupar o novo território não foram os vivos, mas sim os mortos. Antes da transferência oficial da população, o cemitério já estava em funcionamento desde 1999.

A necessidade dessa medida surgiu quando, em 1995, foi formalizado o início das obras tanto do Castanhão quanto da nova Jaguaribara. Para garantir as exumações dentro do prazo legal de três anos, foi determinado que o cemitério da antiga cidade não recebesse mais sepultamentos. Dessa forma, os jaguaribarenses falecidos passaram a ser enterrados em Jaguaretama até fevereiro de 1999. A partir de então, passaram a ser sepultados no novo cemitério de Jaguaribara.

O primeiro sepultamento realizado na nova cidade foi o de Francisco Rofson Bezerra do Ceará, conhecido como “Rofinho“, uma criança de 10 anos, em junho de 1999. Até maio de 2000, 26 corpos já haviam sido enterrados no local, sendo 14 homens e 12 mulheres, conforme registros da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) da época.

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A chegada dos santos e dos vivos

Outro evento simbólico que antecedeu a chegada definitiva dos moradores foi a transferência das imagens de santos das igrejas da velha Jaguaribara. Em 27 de julho de 2001, uma romaria reuniu cerca de 2 mil pessoas para conduzir as imagens de Santa Rosa de Lima, São Gonçalo e São Vicente Ferrer até os novos templos, construídos como réplicas das igrejas originais. O cortejo contou com a banda do município, 46 ônibus, 148 motos e diversos carros de passeio.

Quatro dias depois, os primeiros moradores iniciaram a mudança para as novas residências. No entanto, antes da chegada dos moradores, um outro estabelecimento já operava na nova cidade: uma casa de prostituição. Com a presença de cerca de 2.000 operários e 200 engenheiros envolvidos nas obras do Castanhão e da nova Jaguaribara, foi aberta a possibilidade para que mulheres que atuavam na prostituição se instalassem primeiro. O estabelecimento foi registrado em uma matéria do Diário do Nordeste, em agosto de 2001, e, na época, houve discussão sobre sua desapropriação, mas o prefeito Cristiano Maia garantiu sua permanência.

 

Exumação e trasladação dos restos mortais

A fase final da realocação de Jaguaribara envolveu um dos processos mais delicados: a exumação dos corpos do antigo cemitério e o translado para a nova cidade. Durante 11 dias, equipes especializadas abriram aproximadamente 319 túmulos e covas, retirando restos mortais de cerca de 701 pessoas. Esses restos foram acondicionados em urnas de zinco e transportados para o novo cemitério, onde foram depositados em ossários verticais.

Parentes dos falecidos tiveram a oportunidade de acompanhar o processo, sendo transportados diariamente da nova Jaguaribara para o antigo cemitério. Durante a operação, o antigo cemitério foi dessacralizado, enquanto o novo recebeu uma cerimônia de sacralização. Por questões sanitárias, a área do cemitério antigo foi escavada, tratada com cal e aterrada com areia para garantir a segurança da água do Castanhão, que hoje abastece parte do Ceará.

 

Memória preservada

Os momentos marcantes desse período estão registrados na Casa da Memória de Jaguaribara, que guarda fotografias e documentos sobre a transferência. O processo de mudança foi complexo e repleto de emoção, marcando a história da cidade e seus moradores. Hoje, Jaguaribara permanece como um símbolo da capacidade de adaptação e resiliência do povo cearense diante das mudanças impostas pelo progresso.

 

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Fonte: DN

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