Entenda como Lula virou o jogo e conquistou 10,4 milhões de votos no 2º turno
A mobilização de eleitores, a redução dos votos brancos e nulos e o avanço no Sudeste e no Nordeste explicam como Lula reverteu a vantagem inicial de Flávio Bolsonaro e venceu a eleição com 4,4 milhões de votos a mais que o adversário
A mobilização de eleitores que não haviam comparecido às urnas no primeiro turno, o crescimento da votação no Sudeste e a recuperação de espaço no Nordeste foram fatores decisivos para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois de começar a disputa final atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o presidente conseguiu inverter o resultado e encerrou o segundo turno, realizado no domingo, 25 de outubro, com uma vantagem de 4.430.191 milhões de votos.
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A mudança no resultado ocorreu em um intervalo de três semanas. No primeiro turno, Flávio havia conquistado 2.224.965 milhões de votos a mais que Lula. Na votação decisiva, porém, o petista chegou a 64.256.232 milhões de votos, o equivalente a 51,79% dos válidos, enquanto o adversário recebeu 59.826.041 milhões, correspondentes a 48,21%.
Os números mostram que a diferença não foi resultado apenas da disputa pelos eleitores dos candidatos eliminados na primeira etapa. A entrada de novos votantes e a redução dos votos brancos e nulos ampliaram o total de votos válidos disponíveis, criando uma oportunidade para os dois concorrentes aumentarem suas votações.
Lula concentrou a maior parte dos votos conquistados entre os turnos
Entre as duas etapas da eleição, Lula acrescentou 10.376.694 milhões de votos ao resultado inicial. Flávio Bolsonaro, por sua vez, aumentou sua votação em 3.721.538 milhões. Na comparação entre os dois crescimentos, o presidente ficou com aproximadamente três quartos dos novos votos contabilizados na disputa, enquanto o candidato do PL recebeu cerca de um quarto.
A diferença de desempenho ajuda a explicar como Lula conseguiu superar a vantagem construída pelo adversário no primeiro turno. Embora Flávio tenha começado a campanha para a votação final em posição favorável, seu crescimento foi insuficiente para acompanhar o avanço do presidente.
No conjunto, havia cerca de 14,1 milhões de votos adicionais em disputa, considerando a votação dos candidatos eliminados no primeiro turno e os votos que passaram a ser válidos na etapa final. Lula conseguiu transformar essa oportunidade em uma vantagem suficiente para garantir a vitória.
Comparecimento às urnas teve papel importante na mudança do resultado
Um dos principais fatores da eleição foi o aumento da participação dos eleitores. Aproximadamente 3 milhões de pessoas que não haviam votado no primeiro turno compareceram na segunda etapa. Além disso, os votos brancos e nulos caíram de cerca de 6 milhões para 4,2 milhões, acrescentando outros 1,8 milhão de votos válidos ao resultado.
A redução da abstenção não ocorreu de maneira uniforme em todas as regiões. O Sudeste registrou o maior aumento no número de votos válidos, com aproximadamente 2,4 milhões a mais. O Nordeste veio em seguida, com 1,5 milhão. No Sul, o acréscimo ficou próximo de 700 mil, enquanto o Centro-Oeste teve mais de 250 mil votos adicionais.
O Norte foi a única região em que houve redução, com cerca de 145 mil votos a menos entre as duas etapas.
Esse movimento ampliou o eleitorado efetivamente participante da decisão e mudou o cenário da disputa. A campanha de Lula apostou na mobilização de pessoas que não haviam votado anteriormente, e o resultado final mostrou que a ampliação do comparecimento foi um componente importante da virada.
Sudeste garantiu a maior parcela do crescimento de Lula
Apesar de o Nordeste continuar sendo a região em que Lula obteve sua maior vantagem sobre Flávio, foi no Sudeste que o presidente mais aumentou sua votação em números absolutos.
Dos 10,4 milhões de votos adicionais conquistados pelo petista no segundo turno, aproximadamente 4,8 milhões vieram dos quatro estados da região. São Paulo respondeu por cerca de 2,6 milhões desse crescimento, incluindo mais de 800 mil votos na capital paulista. Minas Gerais acrescentou aproximadamente 1,1 milhão, enquanto o Rio de Janeiro contribuiu com cerca de 900 mil.
A participação do Sudeste foi decisiva porque a região reúne um dos maiores contingentes eleitorais do país. Mesmo sem vencer em todos os estados, Lula conseguiu ampliar sua votação e reduzir a distância para Flávio em áreas importantes da disputa.
No primeiro turno, o presidente havia obtido 39,7% dos votos válidos da região. No segundo, chegou a 47,2%, um avanço de 7,5 pontos percentuais.
Flávio também cresceu no Sudeste, acrescentando cerca de 1,9 milhão de votos ao resultado inicial. Sua participação passou de 51,4% para 52,8% dos votos válidos regionais. Ainda assim, o desempenho ficou abaixo do registrado por Jair Bolsonaro em 2022, quando o ex-presidente alcançou 54,3% na região.
Nordeste ampliou a vantagem do presidente
No Nordeste, a votação ajudou Lula a consolidar a vitória nacional. A região reuniu tanto os votos dos candidatos derrotados no primeiro turno quanto uma parcela expressiva de eleitores que compareceram apenas na etapa final.
Somados, esses grupos representavam aproximadamente 3,3 milhões de votos adicionais em disputa no Nordeste. Lula recebeu cerca de 88% desse conjunto, enquanto Flávio ficou com aproximadamente 12%, conforme a análise dos resultados regionais.
O presidente passou de 63,8% dos votos válidos nordestinos no primeiro turno para aproximadamente 69,4% no segundo. O resultado recuperou o patamar alcançado em 2022, quando Lula obteve 69,3% na região.
Em números absolutos, o petista conquistou quase 3 milhões de votos a mais no Nordeste entre as duas etapas. A Bahia registrou um acréscimo de aproximadamente 820 mil votos para Lula, Pernambuco teve mais de 560 mil e o Ceará contribuiu com cerca de 480 mil.
Flávio também aumentou sua votação regional, mas em proporção menor. O candidato do PL recebeu aproximadamente 400 mil votos adicionais no Nordeste. Sua participação nos votos válidos caiu de 30,85% para 30,63%, indicando que o crescimento em números absolutos não foi suficiente para ampliar sua fatia do eleitorado.
Flávio não repetiu o crescimento de Jair Bolsonaro em 2022
A comparação com a eleição anterior também ajuda a compreender o resultado. Em 2022, Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno atrás de Lula, mas conseguiu ampliar consideravelmente sua votação na etapa final. O então presidente conquistou cerca de 7 milhões de votos adicionais e reduziu a distância, embora tenha terminado derrotado.
Em 2026, o movimento foi diferente. Flávio começou o segundo turno na frente, mas acrescentou menos votos que Lula e acabou ultrapassado pelo adversário.
No primeiro turno, Flávio havia obtido aproximadamente 47% dos votos válidos, desempenho superior ao de Jair Bolsonaro na primeira etapa de 2022, quando o ex-presidente alcançou 43,2%. Na votação final, porém, Flávio terminou com 48,2%, abaixo dos 49,1% obtidos por Jair quatro anos antes.
O candidato do PL também não conseguiu incorporar integralmente a votação dos concorrentes eliminados. Entre eles estavam Augusto Cury (Avante), que recebeu cerca de 3,4 milhões de votos no primeiro turno, e Ronaldo Caiado (PSD), que teve aproximadamente 2,6 milhões e declarou apoio a Flávio.
Os resultados, entretanto, não permitem afirmar com precisão como cada eleitor mudou seu voto. Parte dos votos adicionais pode ter vindo de pessoas que não participaram da primeira etapa, enquanto outros eleitores podem ter escolhido um candidato diferente no segundo turno.
Goiás mostra que o apoio político não garante transferência de votos
O desempenho em Goiás oferece um exemplo dessa dificuldade. O estado teve uma participação expressiva de Ronaldo Caiado no primeiro turno, quando o então candidato conquistou aproximadamente 12% dos votos.
Depois da eliminação de Caiado, Lula avançou cerca de nove pontos percentuais em Goiás, enquanto Flávio cresceu aproximadamente seis pontos. O resultado indica que a disputa pelo eleitorado dos candidatos derrotados foi mais complexa do que uma simples transferência automática de votos para o concorrente apoiado por eles.
Além disso, a ampliação do comparecimento às urnas pode ter alterado o peso relativo de cada candidatura. Também é possível que parte dos eleitores tenha mudado de preferência entre os dois turnos.
Outro dado reforça esse cenário: em aproximadamente uma de cada seis cidades brasileiras, Flávio terminou o segundo turno com menos votos em números absolutos do que havia recebido no primeiro. Isso mostra que o crescimento nacional do candidato não ocorreu de maneira uniforme em todos os municípios.
Resultado final teve distribuição regional diferente
A vitória de Lula não significa que ele tenha sido o candidato mais votado em todas as regiões do Brasil. O presidente venceu no Nordeste e no Norte, enquanto Flávio Bolsonaro obteve maioria no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste.
No Nordeste, a vantagem de Lula foi determinante para o saldo nacional. Já no Sudeste, o crescimento do petista reduziu a distância em uma região onde Flávio terminou à frente. O desempenho em Minas Gerais também teve peso na disputa, pois o estado foi um dos principais pontos de equilíbrio entre as duas candidaturas.
Na Região Norte, a disputa terminou praticamente empatada. Lula venceu Flávio Bolsonaro por uma diferença de apenas 1.079 votos, com 50,01% dos votos válidos, contra 49,99% do adversário.
A distribuição dos votos mostra que a eleição foi decidida pela combinação de fatores diferentes: maior comparecimento às urnas, redução dos votos brancos e nulos, crescimento de Lula no Sudeste e ampliação de sua vantagem no Nordeste.
Virada foi resultado da soma de vários movimentos
A reeleição de Lula, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, representou uma mudança inédita no histórico das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Até então, nenhum candidato que havia ficado em segundo lugar na primeira votação tinha conseguido vencer a disputa presidencial no segundo turno.
Os números indicam que a virada não pode ser explicada por um único estado ou grupo de eleitores. O presidente conseguiu crescer mais que o adversário, atrair a maior parte dos votos adicionais e recuperar espaço em regiões estratégicas.
Flávio manteve vantagem em três das cinco grandes regiões brasileiras, mas o resultado não foi suficiente para compensar a diferença construída por Lula no Nordeste e o avanço petista em áreas importantes do Sudeste.
Ao final da apuração, a distância de aproximadamente 4,4 milhões de votos confirmou que a liderança do primeiro turno não assegurava a vitória. A mobilização de eleitores e a distribuição regional dos votos foram decisivas para transformar a vantagem inicial de Flávio em uma vitória nacional de Lula.
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