Ceará pode enfrentar até 202 dias por ano com calor acima de 35°C

A intensificação das mudanças climáticas já afeta o cotidiano no Ceará e em diversas partes do planeta. Impulsionado principalmente pela emissão de gases de efeito estufa resultantes de atividades humanas, o aquecimento global altera padrões de temperatura e chuva, tornando eventos extremos cada vez mais comuns.

O alerta foi reforçado pelo físico e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Alexandre Costa, durante o lançamento do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Estado, promovido pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema). Ex-gerente do Departamento de Meteorologia e Oceanografia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), ele destacou que o mundo se aproxima do limite de 1,5°C de aquecimento em relação ao período pré-industrial, meta estabelecida no Acordo de Paris.

Em 2025, a temperatura média global já alcançou 1,44°C acima dos níveis históricos. Segundo o pesquisador, esse avanço coloca o planeta perto de um ponto em que as mudanças se tornam irreversíveis. Um dos sinais mais evidentes é o aumento das ondas de calor, hoje quase nove vezes mais frequentes do que seriam em condições naturais.

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Impactos no Ceará

As projeções para o Ceará até 2100 indicam cenários preocupantes. Caso as emissões continuem elevadas, a temperatura média anual pode ultrapassar 30°C na maior parte do território. Mesmo áreas serranas, tradicionalmente mais amenas, teriam médias acima de 27°C.

O número de dias com máximas superiores a 35°C pode crescer significativamente. No cenário mais crítico, o Estado enfrentaria até 202 dias por ano nessas condições, o equivalente a quase todo o calendário anual. Mesmo em uma trajetória mais otimista, seriam 57 dias adicionais de calor extremo.

Embora a redução do volume total de chuvas não deva ser acentuada — estimativa de queda de 3% no pior cenário, a distribuição tende a se tornar mais desigual. Modelos indicam aumento das precipitações no norte do Estado e diminuição no Sul, região que concentra importantes reservatórios. Esse desequilíbrio pode ampliar a dependência hídrica da Transposição do Rio São Francisco.

As chuvas também devem ocorrer de forma mais intensa. A elevação entre 6% e 18% na severidade dos eventos extremos pode provocar erosão do solo, prejuízos à agricultura e riscos a estruturas como barragens. Além disso, a estação seca pode se estender por cerca de 25 dias extras, comprometendo o abastecimento e o equilíbrio hídrico.

 

Terras secas e aquecimento acelerado

O Ceará integra o grupo de regiões classificadas pela ciência como “terras secas”, que aquecem mais rapidamente do que áreas úmidas. Com pouca umidade disponível para evaporação, a maior parte da energia solar é convertida diretamente em calor na superfície, intensificando as temperaturas.

Em escala global, a continuidade do uso de combustíveis fósseis pode elevar o aquecimento em até 5°C até 2300, cenário que tornaria extensas áreas do planeta inabitáveis e inviabilizaria a produção agrícola em larga escala.

 

Fontes de emissão e caminhos possíveis

O dióxido de carbono (CO₂), liberado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás, é o principal responsável pelo aquecimento. Seus níveis atuais são tão elevados que a absorção natural pelo planeta levaria milhares de anos.

Outros gases, como o metano (CH₄) e o óxido nitroso (N₂O), ligados sobretudo à agropecuária, têm potencial de aquecimento ainda maior. O metano, por exemplo, é cerca de 28 vezes mais potente que o CO₂ em um período de 100 anos. No Brasil, o rebanho bovino somava 238,2 milhões de cabeças em 2024, número superior à população do País, estimada em 212,5 milhões.

Para conter o avanço da crise climática, o professor defende a substituição gradual dos combustíveis fósseis por fontes limpas, a eletrificação do transporte, o fortalecimento do transporte coletivo sobre trilhos e a ampliação de áreas florestais para captura de carbono, estratégia que vai além de zerar o desmatamento.

Ele também ressalta a necessidade de políticas públicas para gestão de resíduos, incentivo à sustentabilidade e revisão de padrões de consumo, inclusive alimentares.

 

Desafio geracional

Costa avalia que a omissão diante do problema impõe um custo elevado às gerações atuais e futuras. Caso não haja mudança de rumo, as crianças de hoje podem enfrentar, ao longo da vida, múltiplas vezes mais ondas de calor, secas e enchentes.

Para ele, a resposta passa por investimento em ciência local, planejamento estratégico e cooperação internacional. Sem ações coordenadas, o agravamento da crise climática pode acirrar disputas geopolíticas e enfraquecer acordos multilaterais.

O pesquisador conclui que a adaptação e a redução das emissões são urgentes, especialmente no semiárido nordestino, onde os impactos tendem a ser mais severos. Em jogo, afirma, está a própria viabilidade de vida em regiões vulneráveis às mudanças do clima.

 

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Fonte: DN

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