Ceará gasta milhões com doenças causadas pela falta de esgoto tratado

A precariedade do saneamento básico no Ceará segue pressionando o sistema público de saúde e consumindo recursos que poderiam fortalecer a rede de atendimento. Em 2024, mais de 12 mil internações foram registradas por doenças associadas à ausência de tratamento adequado do esgoto, resultando em um gasto de R$ 5,14 milhões apenas com hospitalizações, valor equivalente à construção de até três unidades de saúde de pequeno porte.

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O problema ganha proporções ainda maiores quando se observa que quase metade do Estado não conta com coleta e tratamento de esgoto. A consequência mais imediata aparece nas crianças: quase 70% das internações por doenças relacionadas ao contato com água contaminada ou dejetos atingem pessoas de até 19 anos. Somente entre bebês e crianças de até quatro anos, mais de cinco mil casos precisaram de internação no último ano.

Além dos impactos diretos na saúde, o ciclo de adoecimento reduz a frequência escolar e compromete o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Dados do Censo 2022 mostram que mais de 1 milhão de jovens cearenses vivem em casas sem esgotamento sanitário adequado, e, entre eles, a maioria utiliza fossas rudimentares, que não garantem proteção contra agentes infecciosos.

A falta de saneamento também pesa no orçamento a longo prazo. Segundo o Instituto Trata Brasil, a universalização da coleta e do tratamento de esgoto poderia economizar R$ 69 milhões por ano em gastos com saúde no Ceará. Até 2040, a economia acumulada pode chegar a R$ 1,2 bilhão, considerando internações evitadas e afastamentos de profissionais adoecidos.

A realidade de comunidades como o Vicente Pinzón, em Fortaleza, ilustra o problema: crianças brincam em áreas tomadas por esgoto a céu aberto, canais poluídos e lixo acumulado. No entorno do Riacho Maceió, moradores relatam adoecimentos frequentes, mau cheiro constante e invasão de esgoto em casas durante o período chuvoso. Em 2024, 391 pessoas morreram no Ceará devido a doenças relacionadas ao saneamento inadequado, a maioria idosos.

Apesar de Fortaleza apresentar mais de 70% de cobertura de rede de esgoto, o atendimento real é menor porque muitas casas não estão ligadas ao sistema. Essa desconexão representa prejuízo duplo: agrava a saúde pública e provoca perda mensal de aproximadamente R$ 3 milhões em arrecadação, valor que poderia financiar novas obras.

A maior PPP de esgotamento sanitário do país, firmada entre a Cagece e a Ambiental Ceará, promete ampliar a rede e atingir 95% de cobertura até 2040 em 24 municípios. Somente em 2024, 215 km de novas tubulações foram instalados, e a expansão continua em 2025.

Enquanto isso, o esgoto sem tratamento segue correndo por ruas, canais e rios, e avançando para dentro dos hospitais. O custo, financeiro e humano, reafirma a urgência de universalizar o saneamento básico como medida essencial de saúde pública.

 

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Fonte: DN - Foto: O Povo

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