Falta de infraestrutura faz Ceará desperdiçar energia renovável recorde
O Ceará acumula uma perda de energia suficiente para manter 16,5 milhões de residências abastecidas por um mês. O dado faz parte de um relatório da empresa ePowerBay, que aponta o Estado entre os quatro que mais sofrem com o fenômeno do curtailment, cortes de geração de energia renovável provocados por falhas estruturais e baixa capacidade de escoamento no sistema elétrico.
Entre outubro de 2021 e setembro de 2025, o Ceará deixou de gerar cerca de 3,3 milhões de megawatts-hora (MWh). Apenas em setembro, as perdas alcançaram 396 mil MWh, o equivalente ao consumo mensal de quase 2 milhões de residências. No ranking nacional, o Estado aparece atrás do Rio Grande do Norte, Bahia e Minas Gerais.
O curtailment ocorre quando usinas são obrigadas a reduzir a produção por falta de capacidade da rede para absorver toda a energia gerada, principalmente de fontes renováveis como solar e eólica. O diretor técnico da ePowerBay, André Felber, explica que o excesso de energia e a limitação das linhas de transmissão têm se tornado um entrave crescente no Nordeste.
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Problema deixou de ser pontual e se tornou estrutural
Nos últimos dois anos, o curtailment no Ceará deixou de ser um episódio isolado para se tornar um obstáculo estrutural. Em 2025, as perdas variaram entre 10,8% e 35,8%, atingindo o pico em fevereiro. Apenas em setembro, o índice chegou a 29%, o terceiro maior entre os estados analisados.
Para o secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia, Machidovel Trigueiro Filho, o cenário é preocupante. “Quando as perdas ultrapassam 10%, há impacto direto na viabilidade econômica dos projetos. No Ceará, picos acima de 30% comprometem a atratividade de novos investimentos”, afirmou.
Impactos econômicos e ameaça à competitividade
O gerente de Desenvolvimento Sustentável da FIEC, Joaquim Rolim, alerta que os níveis de perda no Brasil estão entre os mais altos do mundo e afetam de forma significativa a economia cearense. Segundo ele, o problema gera insegurança no setor e atinge indústrias que fabricam aerogeradores e pás eólicas, importantes geradoras de emprego e renda no Estado.
“As usinas renováveis costumam elevar em até 13% a arrecadação dos municípios e impulsionar em mais de 20% o PIB e o Índice de Desenvolvimento Humano local. O avanço do curtailment ameaça todo esse ecossistema econômico”, ressalta Rolim.
Geração solar é a mais afetada
De acordo com o secretário executivo de Energia e Telecomunicações da Seinfra, Dickson Araújo, cerca de 72% da geração energética cearense é renovável, e a energia solar é a mais prejudicada. “Os cortes durante o dia, quando há maior incidência solar, têm um peso enorme. A produção fotovoltaica sofre mais porque coincide com o pico da geração eólica, ampliando a sobrecarga no sistema”, explica.
Soluções exigem tecnologia e expansão da rede
Especialistas apontam que o enfrentamento do curtailment passa por medidas de curto e longo prazo. Machidovel Trigueiro defende o uso de inteligência artificial para otimizar o consumo e o investimento em baterias e sistemas de armazenamento. Já no horizonte mais amplo, destaca a necessidade de ampliar as redes de transmissão, fortalecer o consumo local e atrair indústrias eletrointensivas.
“O desafio pode ser transformado em oportunidade se o Estado souber aproveitar o momento para se reposicionar no setor energético”, avalia.
Rolim reforça que a compensação financeira às empresas impactadas deve ser prioridade. “Sem soluções urgentes, o Ceará corre o risco de perder novos investimentos em energia limpa, um setor estratégico e de baixo custo”.
Governo e União buscam alternativas
O Governo do Ceará tem atuado junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para reduzir os cortes. A administração estadual também busca ampliar o sistema de transmissão e criar condições para receber grandes empreendimentos, como data centers e o Hub de Hidrogênio Verde do Pecém.
Em nível nacional, o Ministério de Minas e Energia (MME) criou um grupo de trabalho para diagnosticar o problema e propor soluções regulatórias e operacionais. Entre as ações estão a priorização de obras de transmissão e a instalação de novos equipamentos que aumentem a confiabilidade da rede.
Com uma matriz majoritariamente renovável e potencial para ser referência em energia limpa, o Ceará enfrenta agora o desafio de equilibrar produção, infraestrutura e consumo para evitar que o excesso de energia continue se transformando em desperdício.
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Fonte: DN


