Cristalino Brandão: o sanfoneiro que fez da música sua morada no Ceará

Nascido em 30 de junho de 1940, na cidade de Codó, no Maranhão, Cristalino Brandão não é apenas um nome, mas uma verdadeira lenda da sanfona nordestina. Há mais de 65 anos ele transforma a vida em música, tocando seu instrumento com alma, paixão e uma trajetória que se confunde com a própria história do forró tradicional no Nordeste. De origem humilde, enfrentou uma infância dura, marcada por castigos, fugas e noites dormidas nas ruas de Fortaleza. Mas foi da dor que nasceu o artista. Foi na sanfona que encontrou sua voz.

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Ainda adolescente, sua vida mudou quando conheceu Mundico da Serra Azul, um dos grandes mestres da sanfona. Com ele, aprendeu os primeiros acordes, seguindo-o pelas estradas e palcos improvisados. Aprendeu errando, ouvindo críticas e superando o som “de bacorinhos roncando”, como chegou a ouvir certa vez. Mas a paixão era mais forte que qualquer desânimo. Com esforço e perseverança, foi se tornando referência em todo o Vale do Jaguaribe, chegando a conquistar o 1º lugar em um festival de sanfoneiros promovido por Luiz Gonzaga em Limoeiro do Norte.

Desde então, nunca mais largou a música. Tocou em vaquejadas, casamentos, batizados, festas de padroeiros, de rua e em grandes palcos, ao lado de nomes como Waldonys, Zé Cantor, Dedim Gouveia e Sirano. Mesmo sem empresário, recusando propostas de bandas e sem se prender a contratos, Cristalino fez da sanfona sua companheira fiel. E, com ela, construiu uma história respeitada, marcada por autenticidade, talento e liberdade.

Radicado há décadas no Ceará, adotou Limoeiro do Norte como sua terra e foi adotado de volta, recebendo com orgulho o Título de Cidadão Limoeirense. Desde as primeiras edições do tradicional Festival de Sanfoneiros da cidade, seu nome já brilhava entre os mestres que marcaram a história da música regional.

Hoje, aos 83 anos, Cristalino se mantém firme, cercado de seus anéis, lembranças e instrumentos. Com sua rede armada e sua mulher ao lado, ele celebra a vida como quem celebra uma festa: com música no coração e gratidão na alma. Diz com orgulho que conhece as notas, os baixos e os botões e, acima de tudo, conhece a força do dom que Deus lhe deu.

Cristalino Brandão não é apenas um sanfoneiro. É um capítulo vivo da cultura nordestina. Uma memória que canta, um fole que fala, um homem que transformou sofrimento em arte e fez do forró uma ponte entre passado e presente.

Uma homenagem mais do que merecida ao “negro de cor diferente”, como se definiu com poesia e coragem. Um artista que, mesmo sem grandes palcos, conquistou o Nordeste com seu som, sua história e sua verdade.

 

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Por Nilo Leite

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