Pé-de-Meia pode levar Ceará a ter a menor evasão no ensino médio do país
Um programa federal criado para incentivar estudantes a permanecerem na escola pode colocar o Ceará em posição de destaque nacional no combate à evasão escolar. Projeções divulgadas nesta semana indicam que o estado tem potencial para registrar a menor taxa de abandono do ensino médio entre as redes públicas do Brasil nos próximos anos.
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A estimativa aparece em um estudo inédito produzido pelo Centro de Evidências da Educação Integral (CEEI), iniciativa que reúne pesquisadores do Insper, do Instituto Sonho Grande e do Instituto Natura. A pesquisa analisou os possíveis efeitos do programa Pé-de-Meia e simulou como o benefício financeiro oferecido a estudantes pode impactar a permanência na escola.
Antes da implementação da política, o Ceará já apresentava um dos menores índices de evasão do país. Entre 2019 e 2020, a taxa registrada na rede pública foi de 18,2%, a quarta mais baixa entre os estados brasileiros. Com a expansão do incentivo financeiro, a projeção indica uma queda de cerca de 8,2 pontos percentuais, o que poderia colocar o estado na liderança nacional na redução do problema.
O impacto tende a ser ainda mais significativo entre estudantes de famílias em situação de maior vulnerabilidade econômica, com renda mensal per capita entre R$ 218 e R$ 706. Nesse grupo, os pesquisadores estimam que a evasão pode cair até 10 pontos percentuais, resultado superior à média nacional prevista, que gira em torno de 6,3 pontos.
Segundo a pesquisadora Laura Almeida Ramos de Abreu, uma das autoras do levantamento, o estudo utiliza modelos teóricos para prever os efeitos de programas de incentivo financeiro voltados a alunos do ensino médio. A análise considerou cenários em todos os estados brasileiros e concluiu que regiões com maior concentração de jovens em situação de vulnerabilidade tendem a apresentar impactos mais expressivos.
“O modelo tenta reproduzir a realidade para estimar quais seriam os resultados dessas políticas. Embora não utilize dados reais do programa, ele ajuda a orientar decisões antes mesmo da implementação completa”, explica a pesquisadora.
Criado em 2024 pelo governo federal, o Pé-de-Meia funciona como uma espécie de poupança estudantil para jovens da rede pública inscritos no Cadastro Único. Os alunos recebem incentivos mensais de R$ 200 mediante comprovação de matrícula e frequência escolar. Além disso, há bônus de R$ 1 mil ao final de cada ano concluído do ensino médio, liberados apenas após a formatura.
Também existe um adicional de R$ 200 para estudantes que participarem do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no último ano. Somando todos os benefícios, o valor total recebido por um aluno ao longo do ensino médio pode chegar a R$ 9,2 mil.
Os pesquisadores estimam que, no país, cerca de um em cada quatro jovens que abandonariam a escola acaba permanecendo nos estudos graças ao incentivo financeiro. A taxa de evasão entre estudantes de famílias vulneráveis, que seria de 26,4% sem o programa, pode cair para aproximadamente 19,9% com o benefício.
Além de estimular a permanência na escola, o dinheiro recebido ajuda a custear despesas da rotina estudantil e, em muitos casos, contribui para o orçamento familiar. Estudantes relatam usar os recursos para comprar materiais escolares, pagar cursinhos preparatórios e até ajudar nas contas da casa.
Apesar dos resultados promissores, os especialistas ressaltam que o incentivo financeiro, sozinho, não resolve completamente o problema da evasão escolar. Fatores como qualidade do ensino, dificuldades de aprendizagem, necessidade de trabalhar e responsabilidades familiares também influenciam a decisão de muitos jovens de deixar a escola.
Por isso, a pesquisa defende uma estratégia mais ampla para enfrentar o desafio. Entre as recomendações estão a melhoria da qualidade das escolas, ações de recuperação de aprendizagem, apoio psicológico e maior flexibilidade na organização dos estudos.
Mesmo assim, os especialistas destacam que programas como o Pé-de-Meia representam um avanço importante. Ao manter um jovem na escola até a conclusão da educação básica, o país evita perdas econômicas e sociais que podem chegar a quase R$ 400 mil ao longo da vida desse estudante, considerando renda futura, produtividade e impactos na qualidade de vida.
Para os pesquisadores, reduzir a evasão escolar de forma significativa pode levar anos, mas políticas públicas combinadas têm potencial para transformar esse cenário nas próximas décadas.
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Fonte: DN/Poder360



