Tarifaço dos EUA dispara café em 35% e pressiona mercado global em agosto

A sobretaxa de 50% imposta pelos Estados Unidos ao café brasileiro provocou um verdadeiro abalo no mercado global da commodity. O Brasil, maior produtor do mundo, foi forçado a redirecionar cargas, renegociar contratos e lidar com um cenário de incertezas. O resultado foi imediato: os contratos futuros do café arábica dispararam quase 35% em agosto, a maior alta mensal desde 2014.

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Segundo dados da Bolsa de Nova York, a cotação saltou de US$ 2,842 por libra em 1º de agosto para US$ 3,757/libra no fechamento da última quinta-feira, 28 de agosto. No mercado interno, a Minasul, de Varginha (MG), registrou o preço do arábica a R$ 2.390,00 a saca.

O movimento chama atenção por ocorrer justamente no pico da colheita brasileira, período em que a oferta elevada costuma pressionar preços para baixo. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima a safra 2024 em 54,2 milhões de sacas de 60 kg, mas produtores e cooperativas relatam produtividade um pouco abaixo do esperado em Minas Gerais, maior polo do setor. A Cooxupé, por exemplo, aponta que 91% da colheita já foi concluída.

A sobretaxa mudou a lógica de comercialização. Lotes ainda isentos do tarifaço, que chegam aos EUA até 5 de outubro, passaram a ser negociados com prêmio. Empresas americanas têm pedido postergação ou cancelamento de embarques para evitar o impacto da tarifa. Isso levou exportadores brasileiros a redirecionarem parte da produção para Europa e Ásia.

O choque já ameaça diretamente o consumidor americano. A gigante J.M. Smucker (dona das marcas Folgers e Café Bustelo) anunciou que vai reajustar preços “no começo do inverno” no hemisfério Norte. Outras empresas, como a Keurig Dr Pepper e a Westrock Coffee, também confirmaram repasses ao consumidor ainda neste segundo semestre.

Especialistas avaliam que a escalada dos preços reflete uma combinação de fatores. Ricardo Schneider, presidente do Centro de Comércio do Café do Estado de Minas, aponta preocupações climáticas com a entrada das chuvas, relatos de safra abaixo do esperado e a própria incerteza gerada pelo tarifaço. “O industrial americano, para se proteger, compra contratos na Bolsa de Nova York. É uma forma de garantir abastecimento, já que não há clareza sobre como será a importação do café brasileiro nos próximos meses”, explicou.

Os EUA são o maior importador de café do mundo e dependem fortemente do Brasil, responsável por cerca de 30% do café verde comprado pelos americanos. Segundo Schneider, o tarifaço é uma medida que “não faz sentido do ponto de vista de mercado”, já que 99% do café brasileiro chega em grão verde, sendo industrializado em território americano, ou seja, sem impacto sobre empregos nos EUA.

Enquanto produtores, exportadores e torrefadoras lidam com renegociações e custos adicionais, a incerteza permanece. Para o setor, a questão agora é política: caberá ao governo brasileiro ou à Casa Branca decidir se a sobretaxa será revista. Até lá, o mercado segue instável, com reflexos diretos no bolso do consumidor.

 

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Fonte: UOL

 

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