A luta de Zé Maria do Tomé: 15 anos após seu assassinato, sua voz ecoa no Ceará

“Se me matarem, ressuscitarei na luta do meu povo“. Essas palavras de José Maria Filho, o Zé Maria do Tomé, seguem vivas no Vale do Jaguaribe, onde sua luta contra o uso indiscriminado de agrotóxicos ainda mobiliza comunidades camponesas. 15 anos após seu brutal assassinato, ocorrido em 21 de abril de 2010, seu legado resiste na memória e nas ações dos que continuam a batalha por um semiárido vivo, livre de veneno e pela preservação do direito à terra e à água.

Zé Maria do Tomé, agricultor e líder comunitário da localidade de Tomé, em Limoeiro do Norte, foi executado com mais de 20 tiros após denunciar os efeitos devastadores da pulverização aérea de agrotóxicos no Vale do Jaguaribe, um dos maiores polos de fruticultura do Ceará. Seu nome se tornou símbolo de resistência, e sua luta resultou na aprovação da Lei nº 1.278/2009, que proibia essa prática em Limoeiro do Norte. Mais tarde, em 2019, a Lei Estadual nº 16.820 ampliou essa conquista para todo o Ceará, tornando-se referência nacional.

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A nova ameaça: drones na pulverização aérea

A recente aprovação do uso de drones para pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará reacendeu a preocupação de movimentos sociais, pesquisadores e comunidades afetadas. Para muitos, a medida representa um retrocesso e uma ameaça ao avanço conquistado após anos de luta e mobilização popular.

Renato Pessoa, membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e morador do acampamento Zé Maria do Tomé, destaca que a causa não se resume apenas ao uso de agrotóxicos: “É pelo direito à terra, direito à água, alimentação saudável, pelo semiárido vivo. Zé Maria tinha noção de tudo isso“.

A indignação cresce entre ambientalistas e defensores dos direitos humanos, especialmente porque o governador Elmano de Freitas, que foi coautor da Lei Zé Maria do Tomé enquanto deputado, apoiou a tramitação acelerada do projeto que flexibiliza o uso dessas substâncias.

 

Um grito que não se cala

Mesmo com as ameaças, o movimento de resistência se fortalece a cada ano. A Semana Zé Maria do Tomé, instituída no calendário estadual em 2019, reúne agricultores, acadêmicos, movimentos sociais e religiosos para manter viva sua memória e denunciar o impacto dos agrotóxicos.

Reginaldo Ferreira, historiador e integrante do Movimento 21 de Abril (M21), reforça que os esforços não param: “Estamos preparando uma série de atividades à altura do legado de Zé Maria em defesa de um ambiente sem veneno, poeira e barulho de máquinas“.

A luta também se estende à educação. Em Tabuleiro do Norte, a Escola Família Agrícola (EFA) Jaguaribana Zé Maria do Tomé mantém seu nome como símbolo de compromisso com a agroecologia e a convivência sustentável com o semiárido. “Não é apenas uma homenagem, é um compromisso com o mesmo projeto que Zé Maria defendia“, afirma Thiago Valentim, coordenador da instituição.

 

O futuro da luta

A tragédia que calou a voz de Zé Maria não conseguiu extinguir sua causa. A cada ano, novas sementes germinam em seu nome, seja na formação de jovens camponeses, na articulação política ou na mobilização de comunidades em defesa da vida.

Os que tentaram silenciá-lo com tiros não puderam impedir que sua luta florescesse. Como ele mesmo prenunciou, Zé Maria do Tomé ressuscitou na resistência do povo sertanejo. Seu nome segue vivo, e sua causa continua ecoando pelos campos do Ceará.

 

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Fonte: O Povo

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