Uso de drones para pulverização de agrotóxicos gera alerta em Limoeiro do Norte

A cidade de Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, enfrenta crescente preocupação com os impactos da pulverização de agrotóxicos. Reconhecida como um dos maiores polos fruticultores do Ceará, a região tem registrado um aumento nos casos de câncer e outras doenças, que especialistas associam à exposição prolongada a pesticidas.

A recente liberação do uso de drones para pulverização intensificou o debate. Embora a tecnologia prometa maior precisão e redução do desperdício, moradores denunciam que os produtos químicos continuam atingindo áreas habitadas, contaminando água, solo e ar. O fenômeno da “deriva”, em que partículas de agrotóxicos se dispersam para locais indesejados, preocupa ainda mais especialistas em saúde pública.

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A polêmica ganhou força após a mudança na Lei Estadual nº 16.820/19, que anteriormente proibia a pulverização aérea no Ceará. A flexibilização da norma pelo governo estadual gerou críticas de instituições como a Fiocruz, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que alertam para os riscos do contato com essas substâncias.

Além das preocupações ambientais e sanitárias, a fiscalização do uso de drones levanta questionamentos. Segundo o Fórum Cearense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (FCCIUA), a capacitação dos operadores é mínima, e o controle sobre a aplicação dos produtos é insuficiente, abrindo margem para usos indiscriminados.

Em um município onde “todo mundo conhece alguém com câncer”, a população se vê dividida entre a necessidade de avanço econômico e os riscos à saúde. Enquanto produtores defendem a tecnologia como um avanço na produtividade, especialistas alertam para suas consequências a longo prazo. O debate segue aberto, mas o impacto dos agrotóxicos já é uma realidade para os moradores de Limoeiro do Norte.

 

Impacto na saúde e histórico da legislação

A incidência de câncer no município apresentou redução desde a aprovação da Lei Zé Maria do Tomé, que proibiu a pulverização aérea de agrotóxicos no Ceará. Dados da Secretaria da Saúde do Estado indicam que os casos de intoxicação exógena por agrotóxicos caíram 65% entre 2005 e 2024. No entanto, os registros de câncer em 2024 permanecem nos mesmos níveis de 2009, apesar do crescimento populacional.

A reportagem destaca casos que ilustram os impactos dos agrotóxicos na saúde. Márcia Xavier e sua filha, por exemplo, foram contaminadas por substâncias proibidas desde 1985. O ativista Paulo Ricardo Schneider alerta para os riscos da pulverização por drones e classifica a autorização dessa prática como “uma nova forma de assassinato de Zé Maria do Tomé”, líder ambientalista morto em 2010 após denunciar o uso de venenos na agricultura.

O historiador e ativista socioambiental Reginaldo Ferreira de Araújo também critica duramente o agronegócio no Vale do Jaguaribe. Representante do Movimento 21 de Abril (M21), ele denuncia os impactos ambientais e sociais do uso intensivo de agrotóxicos, incluindo a contaminação de plantações, a mortandade de abelhas e o aumento alarmante de casos de câncer na região.

Reginaldo destaca que, após a proibição da pulverização aérea no Ceará, muitas empresas passaram a utilizar drones, o que, segundo ele, representa uma continuidade dos danos ambientais. Ele defende a revogação da medida que autorizou a pulverização por drones e a proibição dessa prática em todo o país. O historiador compara os impactos dos agrotóxicos a uma “guerra química” e enfatiza a necessidade de conscientização da população sobre os riscos dessa atividade.

 

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Fonte: O Povo

 

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